quarta-feira, maio 17, 2006
Lembranças
Por vezes, faltam as palavras, bate mais forte o coração, choramos de emoção,sentimentos que de tão profundos nos parecem de tal forma arrebatadores, que julgamos ser impossível mais e com tanta itensidade.
A vida proporciona-nos muitos momentos assim, é o nascer de um filho, o seu primeiro gatinhar, o seu primeiro e trémulo passo,a sua primeira palavra, o seu sorriso do tamanho do mundo.
São as "chegadas" e as "partidas" de alguem que se ama, verdadeiramente.
Lembrei-me agora de um dos momentos mais marcantes de toda a minha vida. O dia 16 de Abril de 2002, foi sem duvida um dia de muitas emoções fortes.
Estavamos no fim de tempo da gravidez da Maria, a médica tinha nos pedido para fazermos uma consulta no hospital de Famalicão, já que as restantes tinham sido no Hospital da Trofa, mas ela achou que ali reunia melhores condições para os exames que pretendia fazer.
Sem que estivessemos a espera, embora tudo estivesse já organizado em casa, a médica achou por bem que a Maria nascesse naquele dia à tarde. Foi uma correria ao trabalho da Vitória para justificar a sua ausência que seria então muito prolongada.
A médica achou que a bé-bé poderia estar em sofrimento devido ao facto de lhe parecer que a Vitória teria já pouco liquido amoniótico.
Depois de uma manhã muito atribulada, voltamos ao hospital onde a Vitória ficou então enternada esperando por uma seseriana no final da tarde.
Tive então necessidade de vir a casa buscar a mala, que já estava preparada para uma eventualidade.
Foi então no regresso ao hospital que me deparei com um dos momentos mais marcantes de toda a minha vida.
Enquanto esperava na urgência do hospital por uma premissão para entrar, apercebi-me que estavam ali pessoas em grande sofrimento. Uma dessas pessoas um homem com idade a rondar os 40 anos estava desolado. Pude então mesmo sem querer, saber o que tinha acontecido. Este pai aguardava notícias de um filho que teria 6 ou 7 anos e teria sido atropelado, e se encontrava em estado muito, muito grave. Uma tristeza imensa se apoderou de mim, e ficaria agravada momentos a seguir com a notícia trazida pelo médico ao pai, e que inevitávelmente ouvi. A criança tinha acabado de falecer, seriam 2 ou 3 da tarde.
Jamais irei esquecer o desespero daquele pai, o rosto de sofrimento, os seus gritos de dor. Não é possível maior sofrimento do que o de perder um filho.
" o que vai ser de mim agora sem ti meu filho", só pude imaginar.
E eu ali para ser pai. Não consegui apróximar-me, não lhe consegui dar um abraço, nem sequer os sentimentos, sei que chorei com ele por um bom bocado de tempo.
Mas a vida, tem [(agora mesmo o João acordou, quer leite e veio para o meu colo, soube muito bem este xi-coração que este rapazinho me deu, especialmente quando tem muito sono, e o momento foi bem escolhido por ele)], dizia eu que a vida tem, ou é mesmo assim. Muito injusta, muito cruel, mas tambem muito apaixonante e bela. Umas vezes estamos de um lado, outras estaremos do outro.
A Maria acabaria por nascer as 17: 53, a presença do "tio Portilho", e a emoção de ser pai pela primeira vez, fizeram com que eu esquecêsse, completamente o sucedido antes. Ainda bem que foi assim, mas como é possível.
Acho que nunca tinha falado disto a ninguem, pelo menos nunca contei á Vitória, mas hoje senti vontade de escrever.
Mil beijos meus tesouros. Obrigado por terem vindo.
Pai - 12:09 a.m.