quinta-feira, maio 26, 2022
Que pai seria eu se vos deixasse fazer isso?
Maria,tiveste uma semana em isolamento porque tiveste covid19. Foi muito azar apanhares covid logo na semana do "enterro da gata" ou queima das fitas de Braga.
Tinhas o bilhete para ires todos os dias, sei que te custou muito não ires, ainda tentaste convencer-me de que poderias ir de mascara, porque muita gente tem covid e vai na mesma.
Temos tido algumas discussões em casa, especialmente entre mim e a mãe, ela está numa postura de facilitismo que eu não aprovo, não está fácil de lidar com a situação.
Mas eu não vou desistir de fazer de vocês cidadãos responsáveis e exemplares. Nos ultimos tempos temos tido algumas desavenças cá por casa, tenho sido muito duro com vocês, fico depois triste por não vos puder dar um abraço, mas acho que é fundamental que vocês façam uma reflexão.
Nós conversamos sobre tudo, fazemos debates políticos, falamos de questões éticas e morais, fico sempre muito feliz quando vejo a vossa postura tolerante, de mente aberta para aceitar as diferenças sem julgamentos fáceis.
Mas falham numa parte que eu acho fundamental, é que não basta respeitar o outro só com palavras, é necessário fazê-lo na prática, e isso dá um pouco mais de trabalho.
Expressões populares como "não faças aos outros o que não gostarias que te fizessem a ti" são muito acertadas.
Eu sei que a vossa conduta fora de casa é exemplar, acompanho-vos desde sempre na escola ou nas vossa enumeras actividades e sempre ouvi muitos elogios, no entanto cá em casa nem sempre é assim, e esta zanga toda dos ultimos dias tem a ver com isso.
Vocês acham que os pais tem obrigação de vos fazer tudo, e não param para pensar qual deve ser a vossa retribuição.
Outra expressão popular que ensina bastante sobre a vida é aquela que diz "és pobre e mal agradecido" e esta pobreza não é de dinheiro mas sim de espirito ou de caracter.
Ex: O João fez noitada, vou buscá-lo á estação de comboios num Domingo ás 7h da manhã, chego a casa ele sai do carro e vai deitar-se. Não diz obrigado pai que te levantaste de madrugada para me ir buscar.
Ex: Dia da Mãe, o pai pede para a familia o acompanhar numa caminhada solidária que se ia realizar na vossa antiga escola, caminhada essa que há uns anos atrás foi até iniciada por mim, onde o clube de guias fazia sempre um brilharete fazendo parte da organização, e que teve sempre a vossa participação enquanto lá estudavam.
A vossa resposta foi, não me apetece.
Ex: A menina Maria nunca se preocupa com os horários de chegadas, nem de chegadas nem de saídas, de manhã é sempre um stress e são já várias as vezes que ficas em casa, pagamos passes de comboio e autocarro e muitas vezes andas á nboleia com amigas e além de não ser correcto, faz com que tenhámos de te ir buscar ás horas que a menina decide a Famalicão, andando consatantemente de carro para trás e para a frente porque não conseguem conciliar os horários. Por vezes bastava que um esperasse um pouco pelo outro e vinham juntos.
Quando é realmente preciso, não coloco questões, mas quando vejo que é apenas falta de respeito pelo próximo, que não há um minimo esforço para facilitar a vida dos pais fico muito triste e vocês notam logo.
A Mãe está numa de facilitar tudo, deixa-lá eu vou buscar, mesmo que depois quem vá sou eu, porque se for muito tarde eu não a deixo ir, e se for muito cedo também tenho mais facilidade em madrugar.
No tal dia da caminhada levantei-me cedo ainda esperei que algum de vocês se levantá-se, mas isso não aconteceu. Fiz o almoço de Domingo, e quando vos chamei para comer é que vocês apareceram.
A Maria perguntou?
-Então não ias a uma caminhada? O João que já se tinha apercebido do meu mau humor ou tristeza ficou logo com aquele ar de quem queria dizer, para que foste falar disso?
Eu respondi:
-Ia, mas tive vergonha de ir sozinho.
E é verdade, eu dedico-me tanto a vocês, todos os meus amigos sabem o orgulho que tenho em vocês, aparecer sozinho naquela caminhada deixou-me realmente triste e envergonhado.
Passados alguns minutos, dirigi-me a vocês e disse.
-A partir de agora, e enquanto a vossa atitude não mudar, para filhos medíocres, vaõ ter um pai medíocre. Tudo o que seja fundamental, não vos vai faltar, mas tudo o que seja superfulo acabou. Não há noitadas porque não vos vou buscar, não há mesadas, horários são para cumprir, e não quero cá abraços nem beijos de Judas.
-Menino João, se para ir para o treino do basket vais a pé por opção, a partir de agora também no final vens a pé para casa, porque não me apetece estar a pegar no carro para te ir buscar.
De manhã quando ia levar o João ao comboio ficava sempre um clima constrangedor, habituados a darmos um abraço e um bejinho na partida e na chegada, isto durante 18 anos, esta mudança era mesmo estranha.Ficavamos assim uns segundos parados e depois eu lá dizia, até logo.
E eu ia trabalhar tristinho, eu que sou todo afectos faltava-me o mais importante, o vosso abraçinho de manhá e á noite.
Os meus colegas a quem tinha contado estas peripécias gozavam comigo e apostavam que eu não iria aguentar muito tempo neste regime mais duro.
Mas entretanto as coisas já mudaram um pouco para melhor, comecei a ver uma crescente preocupação da vossa parte na ajuda em casa, o João a ter uma preocupação por deixar a garrafa de água sempre cheia no frigorífico, o quarto mais arrumado, a Maria a arrumar a cozinha e a deixar tudo num brinquinho, etc.
O que ainda não consegui mudar foi o tempo de preparação que a Maria precisa para fazer uma tarefa, 1º vai selecionar uma lista de músicas, depois vai buscar os phones, e só depois faz a tarefa a ouvir música ou algum podcast.
Actualmente já voltamos a dar abraços e beijinhos e eu ando mais feliz.
Mil beijos pestinhas.
Mais do que bons alunos, eu quero que voçês sejam excelentes pessoas.
O meu amor por vocês não poderia ser maior,
Mil beijos pestinhas.
Pai - 8:45 a.m.